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PERITOS EM PERIGO

 
Sírvo-me deste espaço privilegiado para refletir e insurgir-me contra a violência sem limites cada vez mais banalizada em nosso modelo social individualista e permissivo. Há quase um ano atrás escrevi um artigo em alusão ao dia do médico alertando para as agruras e mazelas as quais o médico perito do INSS vem sendo sistematicamente submetido. Acenava para o crescente risco de agressão física ao qual os peritos tem se sujeitado na medida em que a população em geral já não mais respeita as instituições  nem as profissões historicamente mais prestigiadas nas comunidades.
É impressionante a responsabilidade e complexidade das rotinas desempenhadas pelo médico perito do INSS. É dificílimo analisar num rito quase sumário os problemas sociais, físicos e emocionais dos pacientes considerando os aspectos técnicos, legais e éticos envolvidos nas análises periciais para julgar a propriedade ou não de conceder-se o benefício requerido pelo segurado previdenciário. Profissionais de reconhecida capacidade técnica, honradez e amor ao serviço público como o Dr. Edson jamais deveriam estar sujeitos a passar pela humilhação e o trauma do qual ele foi vítima recentemente ao ser agredido fisicamente no exercício legal, ético e digno de sua profissão. Nenhuma inconformidade ou divergência quanto a decisão pericial justifica tamanho absurdo.
Amparar-se na alegação de possíveis problemas psiquiátricos do paciente, autor da selvageria, é pactuar com a conveniência de uma justificativa que cria um precedente perigosíssimo a todos os demais peritos. Partindo-se deste pressuposto, qualquer segurado pode ofender verbalmente ou agredir fisicamente o perito na medida em esta conduta estabelece simultaneamente uma prova de sua necessidade de afastamento do trabalho devido a problemas psiquiátricos e um álibe que o impede de responder por seus atos.
Lamento profundamente pelo colega exemplar que tanto admiro e, além de tudo, pela constatação da deterioração de alguns valores sociais a meu ver extremamente relevantes para o convívio humano harmonioso. Não vislumbro nenhuma solução evidente a curto prazo para o desrespeito que predomina em todas as esferas do nosso meio.. Mas também não pactuo com o imobilismo e o conformismo que alimentam a impunidade que agora já invade e se faz sentir até mesmo nos consultórios médicos.

 

Dr. Jonas Krischke Sebastiany